um descanso na loucura…

janeiro 14, 2011

A razão me direciona, mas não me move.
O que me move é a intuição, a paixão.
O amor, então, é o motor-direcionado.

novembro 13, 2010

A dor em meus joelhos está insuportável. Talvez estejam inflamados. Eu não sei o que há com eles.

Entrada às 08:07h, saída às 21:12h, foi o que registrou o relógio de ponto digital que controla minha vida.

As portas eletrônicas da imponente Torre Norte estavam fechadas. Claro! Escravos saem pelo subsolo. Foi um lapso, já ia me esquecendo.

Enquanto andava pelo largo calçamento tornei a pensar na manifesta ausência de sentido e razão que assombra a vida. Essa constatação não me faz triste ou feliz, mas intrigado e, de certo modo, quem sabe, desmotivado.

Caminhava para casa onde certamente obedeceria ao mesmo ritual: terno e gravata no cabide; sapatos no armário; camisa, meias e cueca no cesto de roupas para lavar; toalha de banho na segunda gaveta, banho ao som de qualquer programa de alguma rádio am; passear pelos canais de tv enquanto termina o pote de iogurte; celular pra recarregar; e-mails interessantes, dormir; acordar 4 horas depois; outra toalha; outro banho ao som das ondas curtas; outro iogurte; metrô e sua imensa multidão sem rosto; a imponente Torre Norte; e, outra vez, ah, não! O relógio de ponto digital que controla minha vida!

Ainda andando, sob as luzes que iluminam a avenida, percorri rapidamente minha imaginação, memória e afins, tentando criar para mim a possibilidade de isso tudo mudar.

Não imaginei nada. Não lembrei de nada. Nada vislumbrei. Nada! Nada que pudesse me causar surpresa. E eu queria tanto suspirar, tirar os pés do chão por algo que me fizesse sentido. Nada.

O resto do percurso foi caminhado igualmente a vida. Sem motivos, sem razões. Para que tudo isso? Não tem sentido viver sem sentido. Comigo permaneceu apenas a insuportável dor nos joelhos.

Declaro, para os devidos fins de direito, que na Constituição indissolúvel e democrática da minha vida:

I – o amor é dom supremo;
II – a paz será protegida;
III – a felicidade será perseguida;
IV – os sonhos serão respeitados;
V – a poesia far-se-á presente;
VI – a filosofia será exercitada;
VII – a esperança será vivida;

§ 1º – Nas noites frias e escuras, escutarei Chico, e lerei Neruda.

§ 2º – Nas tardes solitárias de domingo, confortar-me-ei com a dialética de Sócrates;

§ 3º – Nas madrugadas chuvosas, adormecerei com a poesia de Fernando Pessoa;

§ 4º – Amarei o amor incondicional de Florbela Espanca;

§ 5º – Escutarei a esperança de John e Paul;

§ 6º – Não imporei limites aos sonhos;

§ 7º – E a esperança será minha própria vida.

Em São Paulo, aos 17 dias do mês de abril do ano de 2008.

maio 23, 2010

“Eu tenho pela palavra a mesma fascinação que a lesma tem pelas pedras. E que os lagartos têm pela solidão das pedras.”

Manoel de Barros

“… Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam … Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as … Amo tanto as palavras … As inesperadas … As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem … Vocábulos amados … Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho … Persigo algumas palavras … São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema … Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas … E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as … Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda … Tudo está na palavra … Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu … Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes … São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada … Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos … Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo … Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas… Por onde passavam a terra ficava arrasada… Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferradurasm, como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes… o idioma. Saímos perdendo… Saímos ganhando… Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras.”

Pablo Neruda

*Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares.